“Anonimato: escudo de heróis ou arma de covardes?
19/07/2013
A foto dos 23 manifestantes nus na Câmara de Porto Alegre ontem chama a atenção não só por usarem a nudez em um prédio público como forma de protesto (já falamos do assunto aqui), mas principalmente por estarem com rostos encobertos.
Ditaduras odeiam o anonimato porque é o último bastião onde seus opositores podem se proteger e continuarem a lutar por nobres ideais (e, obviamente, em ditaduras, democratas defendem o uso do anonimato pelos mesmo motivos).
Em democracias, por outro lado, o anonimato impossibilita o debate às claras, e serve aos covardes que não conseguiriam defender suas ideias à luz do sol. É instrumento de ataque desleal.
Daí o anonimato já ter sido usado tanto pela Ku Klux Klan quanto pela resistência francesa.
Entre os primeiros direitos fundamentais de nossa Constituição, está o da manifestação de pensamento. Antes mesmo de tratar de julgamos justos ou privacidade, ela nos garante a liberdade de expressão. Afinal, em uma democracia, temos o direito de dizermos o que quisermos, por genial ou absurdo que seja.
Mas o mesmo inciso continua com uma obrigação que quase sempre passa desapercebida: “sendo vedado o anonimato”.
Isso porque nossa Constituição foi feita em moldes democráticos: você pode dizer o que bem entender e como bem entender, mas precisa assumir o que disse e assumir as consequências legais se aquilo que disse causar dano civil ou penal.
O que se pode deduzir é que, sob a ótica de nossa Constituição democrática, dizer e esconder-se é ato de covardia.
Mas somos de fato uma democracia na qual o debate pode ser feito de forma aberta e civilizada, sem medo de retaliação pessoal?
A resposta evidente é que sim. Afinal, não temos presos de consciência ou presos políticos; não fechamos jornais ou redes de TV; opositores não são condenados em julgamentos políticos. Mas isso significa que nosso debate é de fato democrático ou são apenas evidências de que não há uma ditadura escancarada?
Um bom termômetro - em qualquer país e em qualquer tempo - é se as discussões são focadas no que é dito ou em quem diz. Em democracias plenas, por mais que se deteste quem diz, ouve-se e debate-se o que é dito. Não se faz ataques pessoais, morais ou ideológicos a quem disse. Quando partimos para assassinatos morais (ou mesmo físicos) é porque nos faltam argumentos racionais. Daí surgir a necessidade de quem disse esconder-se atrás do anonimato: é uma forma de remover a personalização do debate e tentar forçar o foco em seu conteúdo.
Dito de outra maneira, o problema é sabermos se a Constituição é o reflexo da realidade ou mera expressão das aspirações da sociedade. Entre o que somos e o que aspiramos ser pode haver uma enorme diferença. Não é porque uma constituição diz que há liberdade de expressão que a liberdade de expressão existe. A lei apenas nos garante a possibilidade da democracia, mas a democracia quem faz somos nós, na prática.
Logo precisamos saber se há diferença entre o que a Constituição estabelece e o que existe na prática. E se há, precisamos saber se essa diferença é tão grande que justifica (ou mesmo exige) manifestantes esconderem-se atrás do anonimato.
Se justifica, o anonimato ajuda na luta pela democracia. Se não justifica, o anonimato é instrumento de baderna”.
Acesso:18/10/2013
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Justiça confirma pena por estelionato contra idoso vítima de golpe do falso técnico bancário
Justiça confirma pena por estelionato contra idoso vítima de golpe do falso técnico bancário : Prejuízo de mais de R$ 300 mil. A 15ª Câm...
-
Comissões de bancários “A comercialização de produtos de outras empresas do grupo econômico do banco é compatível com o rol de atribuições...
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Qualquer sugestão ou solicitação a respeito dos temas propostos, favor enviá-los. Grata!