“Epidemia de
greve de fome devolve a Guantánamo o fantasma da tortura
PATRÍCIA
CAMPOS MELLO enviada especial à base
naval da baía de Guantánamo
O comentário
não representa a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem
Foi
oferecendo privilégios como a possibilidade de rezar ao lado de outros detentos
durante o Ramadã (o mês sagrado dos muçulmanos) que o governo Obama conseguiu
conter uma "epidemia" de greve de fome entre os principais presos de
Guantánamo.
No fim de
junho passado, o número de prisioneiros em isolamento que se recusavam a comer
chegou a 106 dos atuais 166 --sendo que 45 eram submetidos à chamada
alimentação forçada, em que uma sonda é inserida pelo nariz para administrar
suplementos alimentares.
Ontem, o
Pentágono informou à Folha, havia 44 prisioneiros em greve de fome e 33 sendo
alimentados à força.
Há seis
detentos que estão sendo alimentados há mais de seis anos por meio das sondas,
disse à Folha o capitão Robert Durand, diretor de relações públicas da prisão
de Guantánamo.
Entidades de
direitos humanos afirmam que a alimentação forçada consiste em uma grave
violação dos direitos humanos, semelhante à tortura.
No
procedimento, os detentos são amarrados a uma cadeira, imóveis, enquanto a
sonda é inserida até o estômago, em procedimento extremamente doloroso que leva
de uma a duas horas. "A alimentação forçada dos detentos viola os
principais valores éticos da profissão médica. Qualquer paciente tem o direito
de recusar intervenções", escreveu o presidente da Associação Médica
Americana, Jeremy Lazarus.
PATRÍCIA
CAMPOS MELLO
É repórter
especial da Folha. Foi correspondente em Washington por quatro anos e cobriu o
11 de Setembro em Nova York. Tem mestrado em economia e jornalismo pela NYU
(New York University). É autora de "O Mundo Tem Medo da China" e
"Índia - da Miséria à Potência"
"Não
vamos interromper a alimentação forçada, trata-se de uma política dos EUA
preservar a vida através de meios legais", disse Durand.
Ele rechaça
as comparações da alimentação forçada a tortura. "Alimentação forçada é um
processo médico, que não provoca dor --há vários vídeos de meninas fazendo isso
no YouTube."
A maioria
dos prisioneiros em greve de fome já tem autorização para ser transferidos, mas
está há anos em espera, ou nunca foi formalmente acusado de nenhum crime.
Entre 2012 e
2013, a transferência de detentos foi virtualmente paralisada, beneficiando
apenas alguns detentos que já haviam sido liberados.
Obama, em
resposta à greve de fome, anunciou no fim de maio que seriam retomadas as
transferências de detentos a outros países e que voltaria a tentar fechar
Guantánamo, como prometeu em 2009, no segundo dia de seu primeiro mandato.
No fim de
julho, no que foi interpretado como resultado da pressão pela greve de fome, o
governo Obama anunciou a transferência de dois argelinos. Durand diz que isso
ajudou a reduzir o número de manifestantes.
Obama veta
confissões obtidas com tortura, mas defesa continua cega
Até 2006,
muitos prisioneiros da chamada "guerra ao terror" eram frequentemente
torturados em prisões secretas da CIA na Polônia, Romênia, Marrocos ou
Jordânia. Os chamados "detentos de alto valor" foram transferidos
dessas prisões para Guantánamo em 2006.
Em 2009, ao
assinar a Lei de Comissões Militares, Obama afirmou que não seriam admitidas
confissões obtidas por meio de "coerção".
Além do
famigerado "waterboarding" --método de tortura em que há uma
simulação de afogamento-- os prisioneiros eram submetidos a horas em posições
desconfortáveis; frio e calor extremo; obrigados a ficar com fones de ouvido
que tocavam "heavy metal" em volume altíssimo; privação de sono;
insinuações por parte de militares femininas, consideradas ofensiva pelos mais
religiosos; ameaças contra familiares de detentos; uso de cães para intimidar
os presos.
Os advogados
querem excluir todas as confissões que foram obtidas por meio de tortura. Mas,
apesar de o governo americano afirmar que elas não serão admitidas, a defesa
não possui acesso a relatórios sobre as confissões, que são considerados
secretos.
ONU
considera alimentação forçada de prisioneiros 'cruel' e 'degradante'
JOE NOCERA do "New York Times"
Meses depois
de iniciada uma greve de fome que já tem a adesão de cerca de dois terços dos
detentos da prisão de Guantánamo, em Cuba, não é mais possível fugir da
pergunta presente no título.
Para
prisioneiros que não têm outra forma de transmitir o que querem dizer, a greve
de fome é fundamentalmente uma forma de expressão. A greve de fome lhes oferece
meios de protestar contra seu confinamento e transmitir uma mensagem sobre esse
confinamento.
Durante os
chamados "problemas" na Irlanda, por exemplo, prisioneiros do IRA
(Exército Republicano Irlandês) fizerem greves de fome para protestar contra
sua detenção pelos britânicos. Alguns acabaram sendo alimentados à força.
Há décadas a
comunidade internacional, incluindo a Cruz Vermelha Internacional, a Associação
Médica Internacional e as Nações Unidas, reconhece o direito de presos em
condições mentais normais fazerem greve de fome. Alimentá-los à força foi
classificado como violação da proibição do castigo cruel, inumano e degradante.
A Associação Médica Mundial considera antiético um médico participar de
alimentação forçada. Em palavras simples, alimentar pessoas à força viola a lei
internacional.
Seja o que
for que desencadeou a greve de fome em Guantánamo --os detentos dizem que os
militares tinham começado a revistar suas cópias do Alcorão e instituíram série
de medidas novas e rígidas, algo que os militares negam--, o problema
fundamental é que os detentos estão perdendo a esperança de algum dia serem
libertados.
Muitos
deles, incluindo 56 homens do Iêmen, foram liberados por um comitê de altos
funcionários de segurança nacional para deixar a prisão. Mas, graças a ações
adotadas pelo Congresso nos últimos anos e à timidez do presidente Barack
Obama, eles continuam em Guantánamo, sem previsão de saída. A greve de fome tem
sido sua única maneira de lembrar ao mundo de que continuam encarcerados, e vem
funcionando muitíssimo bem.
Podemos nos
perguntar se Obama teria mencionado Guantánamo em seu grande discurso de segurança
nacional, na semana passada, não fosse a greve de fome.
Os militares
afirmam que estão alimentando os detentos à força para mantê-los vivos e em
segurança. De acordo com o "Miami Herald", cerca de um terço dos
detentos em greve de fome estão sendo alimentados à força. Alguns deles estão
no hospital.
Não faz
muito tempo, porém, a Al Jazeera teve acesso a um documento de 30 páginas que
detalhava os procedimentos operacionais padrões usados pelos militares para
alimentar um detento à força.
Era uma leitura
tenebrosa: o detento é acorrentado a uma cadeira especial (que se parece com a
cadeira elétrica); se ele resiste, sua cabeça é amarrada; um tubo é empurrado
por seu nariz abaixo, de modo doloroso; depois, meia hora, mais ou menos, de
ingestão de suplementos nutricionais; em seguida o detento é transferido para
uma "cela seca", onde, se vomita, é amarrado à cadeira novamente até
a comida ser digerida.
Ao que
parece, também é dado aos detentos um medicamento de combate à náusea chamado
Reglan, que possui um efeito colateral horrível quando tomado por mais de três
meses: uma doença chamada discinesia tardia, que provoca espasmos e outros
movimentos incontroláveis.
"Essa
droga é muito assustadora", disse Cori Crider, diretora jurídica do grupo
Reprieve, sediado em Londres, que representa mais de 12 dos detentos. "Meu
medo é que ela esteja sendo dada aos presos sem o consentimento deles."
Embora os militares se neguem a comentar o uso de Reglan --ou qualquer outro
aspecto da alimentação forçada--, vale apostar que o medicamento está sendo
usado.
Os advogados
que representam os detentos querem registrar uma moção numa corte federal para
pôr fim à alimentação forçada, mas existe um "ardil 22". Eles não
podem levar a questão ao tribunal sem o consentimento de seus clientes --e,
graças a outro conjunto de protocolos novos e rígidos, incluindo as revistas
genitais e anais, a maioria dos detentos agora está se negando a falar com seus
advogados.
Antes mesmo
de serem vazados os procedimentos de alimentação forçada, organizações
internacionais estavam protestando contra a prática.
O
Comissariado de Direitos Humanos da ONU divulgou um comunicado no início de
maio qualificando a detenção contínua em Guantánamo como "flagrante
violação da lei internacional de direitos humanos" e descrevendo a
alimentação forçada na prisão como "cruel, inumana e degradante".
Steven
Miles, professor de medicina e bioética na Universidade de Minnesota, já fez
pesquisas extensas sobre a prática da alimentação forçada e comentou: "A
continuação da política de alimentação forçada pelos militares, contrariando a
lei internacional, e a maneira em que ela é feita, constituem tortura".
Essa é a
parte que mais enfurece. Obama já declarou publicamente que a América jamais
deve praticar a tortura. E, é claro, ele também já pediu o fechamento de
Guantánamo.
Não há
dúvida de que qualquer esforço que ele possa fazer para fechar a prisão será
recebido com resistência no Congresso; a resistência já começou. Mas, e a
prática de alimentar detentos à força, algo que virtualmente todo organismo
internacional condena como violação da lei internacional e qualifica como cruel
e inumano? Obama poderia acabar com ela em um instante, com um telefonema para
o Pentágono.
Afinal, ele
é o comandante em chefe.
Não se cria
justiça com injustiça, afirma um preso de Guantánamo
SHAKER AAMER
do "Guardian"
No último
dia 14 de junho, o jornal britânico "Guardian" publicou uma carta
enviada por Shaker Aamer, o último residente britânico detido na prisão de
Guantánamo. Ele havia ditado a mensagem ao seu advogado em 10 de junho de 2013.
Leia a
íntegra:
"Aqui
estou na prisão de Guantánamo. A ideia era a de que eu seria um extremista
muçulmano, um dos 'piores entre os piores', segundo o ex-secretário da Defesa
dos EUA Donald Rumsfeld.
De fato,
como eu ainda estou aqui e 613 detentos já deixaram a prisão, você pode
imaginar que sou o pior entre os piores dos piores. Se bem que o fato de eu ter
sido liberado para ser solto seis anos atrás faria você pensar duas vezes.
Sentado
sozinho em minha cela, tomo conhecimento de atos de terrorismo que acontecem
pelo mundo afora. Como os censores daqui não nos permitem mais ter acesso às
notícias, um castigo por estarmos em greve de fome, fiquei sabendo apenas dos
fatos principais do que aconteceu em Woolwich, mas, mesmo sem saber, é fácil
para mim condenar o que aconteceu.
Ontem mesmo
eu estava conversando com outro detento sobre o assassinato do soldado
britânico Lee Rigby por dois extremistas muçulmanos em Woolwich. Nenhum de nós
pôde entender como alguém pode imaginar que um ato desses é coerente com o
islã. Eu condeno o ato, independentemente da motivação dos homens. Não sei o
que eles pensaram que seria possível realizar com isso. Talvez fossem doentes
mentais, simplesmente.
A mesma
coisa se aplica ao ataque à Maratona de Boston, em abril. Talvez aqueles que
mataram inocentes tenham imaginado de alguma maneira que o ataque representaria
um golpe contra quem combate muçulmanos no Afeganistão ou Iraque ou contra os
americanos que estão matando crianças inocentes com drones (aviões não
tripulados) no Paquistão e Iêmen. Mas seus atos foram redondamente errados. Não
se matam pessoas inocentes nas ruas de Londres e Boston dizendo que é uma jihad
em favor da justiça.
É importante
admitir que os americanos também cometem atos malignos. Eles dizem que sua
motivação é combater o terrorismo, e sou totalmente a favor de se combater o
terror. Mas, embora as intenções deles possam ser boas, seus atos também são
muito errados --quando matam uma criancinha com um míssil disparado por um
drone no Paquistão ou quando encarceram pessoas sem julgamento na prisão de
Guantánamo.
Esses atos
também são muito insensatos. Provocam a ira de pessoas que antes disso poderiam
ter sido abertas à razão, de modo que mais delas se voltam ao extremismo. Esses
atos alimentam o terrorismo, do mesmo modo como, no passado, a negação dos
direitos legais dos suspeitos de serem terroristas irlandeses atraiu pessoas
insatisfeitas ao IRA [o Exército Republicano Irlandês, grupo paramilitar que
lutou pela independência da Irlanda do Norte do Reino Unido].
Fiquei muito
satisfeito ao saber, esta semana, que o primeiro-ministro britânico, David
Cameron, leu a carta que minha filha Johina lhe enviou. Espero um dia em breve
estar de volta ao Reino Unido e poder conversar com políticos sobre como
reduzir o extremismo --quer seja de muçulmanos que fazem uma interpretação
equivocada do Santo Alcorão ou de membros da Liga Inglesa de Defesa (EDL), o
movimento britânico de extrema-direita que promove protestos de rua e se opõe
ao que considera ser a disseminação do islamismo, fazendo uma interpretação
equivocada dos muçulmanos.
Não podemos
criar justiça por meio de atos de injustiça. O mal gera o mal.
Ao mesmo
tempo, porém, a boa vontade gera boa vontade. Pessoas equivocadas sempre
cometem atos equivocados, mas não precisamos viver como se isso pudesse
acontecer conosco todos os dias.
No entanto,
os EUA ainda estão vivendo o pesadelo do 11 de setembro. Os carcereiros de meu
bloco, que tinham apenas oito anos de idade na época, me tratam como se eu
tivesse explodido o World Trade Center. Por que transmitimos esse pesadelo para
a geração seguinte? Ela foi ensinada a odiar. Isso está afastando o mundo da
reconciliação.
Não importa
quem sejamos, precisamos nos lembrar sempre daquilo pelo que lutamos. Neste
momento estou fazendo greve de fome pela justiça. Para mim, vale a pena sofrer
para essa meta; vou levar adiante minha luta pessoal, de uma maneira ou de
outra, até a justiça prevalecer. Sou profundamente grato àqueles que nos apoiam
no Reino Unido e nos EUA.
Quando combatemos
o terrorismo, estamos numa luta para defender nossos princípios --ideias que
terroristas e membros da EDL parecem ter esquecido há muito tempo. Precisamos
sempre garantir que não façamos de nossos princípios e de nosso respeito pelos
outros as primeiras vítimas na luta."


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